Monumento em Berlim. Foto: Andréia Delmaschio.http://www.youtube.com/watch?v=RZgH8sKsTqI
Meus irmãos e eu éramos, quando crianças, catadores de ferro. Sim, exatamente como os atuais catadores de lata ou de papelão. Não me lembro do que fazíamos - se fazíamos - com o dinheiro da venda dos grandes pedaços do mineral coletados nos terrenos baldios do bairro suburbano. Me lembro muito mesmo é da maciez do ferro pisado pela minha conguinha vermelha desbotada (é curioso como continuamos nos referindo à cor perdida, não mais identificável, para descrever os objetos que nos acompanham no tempo e, de dentro do box, pedimos aquela toalha de banho marrom que ninguém é capaz de encontrar, porque agora são todas bege...). Me lembro muito desse paradoxo sinestésico da maciez do ferro, amontoado em nacos que se entrechocavam sob os pés, emitindo um som agradabilíssimo. Na verdade nunca fui uma grande coletora. Embora por um tempo tenha me dedicado com afinco, nunca consegui um quarto sequer da produtividade dos meus irmãos mais velhos, e confundia, por vezes, ferro com pedra preta, o que fez, ao final, com que me excluíssem daquele trabalho, para eles, duro; para mim, macio. Lembro-me principalmente de que vivia uma contradição: se recolhesse muito ferro, não tinha como carregá-lo, por ser extremamente pesado; se recolhesse pouco, ao final do expediente tinha de colocá-lo na sacola de um dos meus irmãos, perdendo assim o renome pelo trabalho realizado. Acho que o problema era basicamente o de juntar e não poder carregar. Talvez me prejudicasse a pouca idade. Ou então a ausência do estímulo de ao menos saber em quê era investido o dinheiro conseguido com a venda, ao findar o dia. Enfim, nunca me disseram a que servia aquele trabalho, para mim de sísifo, para eles de hércules. Não tenho nem mesmo lembrança (se é que um dia soube) do modo como todo aquele ferro em pedaços teria ido parar nos acostamentos e cantões da vila garrido. Será que esta mesma que hoje entope os nossos pulmões e encanamentos com pó de minério saía, na década de setenta, a espalhar os dejetos da pelotização, discretamente, próximo à morada dos pobres? Aquele trabalho permanece na minha memória como algo por muito tempo continuado, diferentemente de quando, por exemplo, tombava um caminhão... As tardes de caras e mãos encardidas entre os meus irmãos habitam o mesmo lugar que aqueles finais de semana em que acompanhava o pai, de madrugada, até a obra onde fazia o seu bico e as noites em que mamãe me dependurava ao colo, enrolada num lençol, e ali me embalava o sono com o barulho da máquina de costura.






